NUA E CRUA low

NUA E CRUA

São atributos que arremetem, em associação direta, à tal VERDADE. Controversa, evitada por muitos, questionada por todos, alvo de permanentes tentativas de diluí-la no nada, afirmam que cada um tem a sua, particular. Pra isso inventaram que a VERDADE não é UMA SÓ, são muitas!

Como vários conceitos que são ABSOLUTOS, a VERDADE, no singular, está incluida num pacote de “coisas” que não se fala, é proibido citá-las sob pena de ser rechaçado, alvo de todo tipo de críticas. Não se pode tocar nessa palavra sem ao menos ser acusado de querer ser dono dela. Isso ocorre também com o próprio conceito de ABSOLUTO, o qual, durante um período, foi negado ao ponto de defenderem a idéia que isso não existia. Foi o tempo em que inventaram uma “lei” de que “TUDO ERA RELATIVO”. Lembra?

Ainda bem que essas bobagens são ondas de pensamentos manipulados, que viram moda e passam, como tudo o que é relativo. O que é ABSOLUTO, permanece, não é passivo da ação do tempo, nunca muda e tem validade por tempo indeterminado. Mesmo que fique oculto por um período, ressurge e se estabelece impassível na sua condição original de ser, independente de interpretações. É, e fim.
Mario Lago

CENTENÁRIO DE MÁRIO LAGO

Há um projeto sendo encaminhado ao MINC para a comemoração do Centenário  de MÁRIO LAGO. Nascido no Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1911, era filho do Maestro Antonio Lago e teve seu primeiro poema publicado aos 15 anos de idade. Escritor dos roteiros das famosas radionovelas da Rádio Nacional, Mário Lago era grande ator e também músico, mas nas letras era um mestre, contemporâneo de Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves, Nelson Rodrigues, Dolores Duran, Orlando Silva, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e outros personagens dos Anos Dourados das noites cariocas. Mario Lago compôs algumas das peças fundamentais do repertório da História da Música Popular Basileira, como “Ai que saudades da Amélia” e a marchinha de carnaval “Aurora”.

Mais do que um artista, Mário Lago foi um incansável ativista em favor da Liberdade de Expressão, da Igualdade Social e fez parte da história política, social e cultural desta Nação. Em sua filmografia contei 34 filmes, sendo o primeiro em 1947 e o último em 1983. Entre eles os lendários TERRA EM TRANSE de GLAUBER ROCHA e O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias.  Mais do que um artista, Mário Lago foi um incansável ativista em favor da Liberdade de Expressão, da Igualdade Social e fez parte da história política, social e cultural desta Nação.

Vou publicar aqui REGULARMENTE novidades sobre o projeto, dirigido e coordenado por Mariozinho Lago, o seu caçula, compositor e poeta, como seu pai, e diretor de muitos projetos culturais, em vários espaços do Rio e São Paulo, incluindo o Circo Voador, na Lapa. Um de nossos poemas predileto de Mário Lago pai:

FAZER UM CÉU

Fazer um céu com pouco a gente faz.
Basta uma estrela,
Uma estrela e nada mais.
Pra ter nas mãos o mundo
Basta uma ilusão.
Um grão de areia
É o mundo em nossa mão.
Sonhar é dar à vida nova cor,
Dar gosto bom às lágrimas de dor.
O sol pode apagar, o mar perder a voz,
Mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.
Atualizo esta postagem em 09/09/2011, com as novidades sobre o projeto: Vídeos e Cds com músicas INÉDITAS de MARIO LAGO estão sendo produzidos para o evento, previsto para 2012. Um site já está on line com todas as informações sobre o projeto, embora esteja ainda em desenvolvimento, tendo alguns ajustes previstos para breve.
VEJA AQUI O SITE   e conheça as novas parcerias de MARIO LAGO com Luiz Melodia, Frejat e Lenine, entre outros. Aí você encontrará algumas preciosidades, como um LIVRO INÉDITO e detalhes da história da vida de um homem que é parte da História do Brasil. Continuaremos acompanhando tudo e aguardando para breve um vídeo que será postado no Youtube.
Clique na foto para ler o poema.

EU SEI QUE TENHO QUE ACORDAR

EU SEI QUE TENHO QUE ACORDAR

Em meios aos véus dos meus delírios
Debato-me entre amarras delicadas
Como teias são as tramas destes sonhos
Onde penso que estou acordada
E penso que falo e sou ouvida
Sinto que toco e sou tocada
Penso ver e creio que sou vista
Mas de tudo nada disso permanece
As palavras são só sons aleatórios
As imagens são difusas e instáveis
Tudo é breve e sempre desvanece.

 

Eu sei que tenho que acordar
Sei também o que quero esquecer
E para acordar vou ter que assumir
Conseqüências de uma escolha infeliz,
Uma escolha que eu mesma fiz.
Se eu lembrar, não vou mais poder mentir
Que, enganada, eu fiz o que não quis,
Nunca mais nem sorte nem destino
Serão álibis dos meus descaminhos…

 

Se eu lembrar, não vou poder fingir
Que outro alguém tem o poder de decidir
O que é e o que será de mim
Nem sequer mais transferir
Para outro além de mim
A responsabilidade do que sou.
Eu sei que tenho que acordar
Mas pra isso terei que confessar
O que foi tão forte
Aqui, dentro do meu peito,
Que me arrastou assim
Para tão longe
Da minha própria consciência.
Me trazendo a este esquife

Do eterno esquecimento
Daquilo que eu realmente sou.

 

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”

Saulo de Tarso em carta aos romanos, cap.7 vv 24.

Azul

AZUL – Tanto Sol V

Eu não podia deixar de postar TANTO SOL. Trata-se de uma série de sete poemetos, que foram surgindo na medida em que me aprofundava numa pesquisa sobre a LUZ. Fui remexer nas pesquisas de Einstein por curiosidade, e acabei passando dois anos e meio envolvida com essa obra séptulpa. A princípio fluiram logo os cinco primeiros poemas, sendo este aqui o quinto, o AZUL.

Quando escrevi o AZUL, travei, porque mergulhei profundamente na experiência que descrevo neste poema. Apenas uma ou duas pessoas tiveram o insight de que este poema descreve algo que eu vivi, de fato.
Lá pelo meio do processo alguém quis me encomendar um poema que julgava estar “faltando” no TANTO SOL, um poema para a cor ROSA, solicitação que precisei declinar devido ao fato de que rosa NÃO É UMA COR, é uma ilusão de ótica. Trata-se da inversão do verde, logo, o rosa não existe. Foi o que expliquei na tentativa de me justificar, pois TANTO SOL só teria sete poemas, um para cada uma das unidades da escala cromáticas. Não teve jeito, sei que causei uma decepção, porque essa coisa do rosa está relacionada com uma propensão à dissociação de certos aspectos da realidade, e lá fui eu de novo num looping que durou mais uns seis meses…
Estou escrevendo uma crônica com este título: ROSA É UMA COR QUE NÃO EXISTE. Assim, quando postar aqui o texto, vocês já sabem a gênese da crônica. Por enquanto fiquem com o AZUL. Este existe, e no poemeto digo o que entendo ser esta cor. No próximo poemeto da série TANTO SOL continuo contando esta saga de dois anos e meio, que ficou registrada em minha página no site literário BLOCOS ONLINE, através de minha querida amiga LEILA MICCOLIS .
Ai de ti Copacabana

AI DE TI, COPACABANA!

Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.
Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.

Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.
Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.
E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.
E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.
Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.
Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.
Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.
Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.
Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.
Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.
E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.
Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.
A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.
Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.
Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

RUBEM BRAGA
Rio, janeiro, 1958.