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EU SEI QUE TENHO QUE ACORDAR

EU SEI QUE TENHO QUE ACORDAR

Em meios aos véus dos meus delírios
Debato-me entre amarras delicadas
Como teias são as tramas destes sonhos
Onde penso que estou acordada
E penso que falo e sou ouvida
Sinto que toco e sou tocada
Penso ver e creio que sou vista
Mas de tudo nada disso permanece
As palavras são só sons aleatórios
As imagens são difusas e instáveis
Tudo é breve e sempre desvanece.

 

Eu sei que tenho que acordar
Sei também o que quero esquecer
E para acordar vou ter que assumir
Conseqüências de uma escolha infeliz,
Uma escolha que eu mesma fiz.
Se eu lembrar, não vou mais poder mentir
Que, enganada, eu fiz o que não quis,
Nunca mais nem sorte nem destino
Serão álibis dos meus descaminhos…

 

Se eu lembrar, não vou poder fingir
Que outro alguém tem o poder de decidir
O que é e o que será de mim
Nem sequer mais transferir
Para outro além de mim
A responsabilidade do que sou.
Eu sei que tenho que acordar
Mas pra isso terei que confessar
O que foi tão forte
Aqui, dentro do meu peito,
Que me arrastou assim
Para tão longe
Da minha própria consciência.
Me trazendo a este esquife

Do eterno esquecimento
Daquilo que eu realmente sou.

 

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”

Saulo de Tarso em carta aos romanos, cap.7 vv 24.

Saias do Marabaixo

O BRASIL NÃO CONHECE O BRASIL

AS SAIAS DO MARABAIXO

O MARABAIXO, a maior expressão cultural do estado do AMAPÁ, é uma tradição dos povos miscigenados entre índios e negros que foram aculturados. Em cada região do norte e nordeste do país eles criaram um tipo de sincretismo, para que o cristianismo da igreja romana não apagasse totalmente suas raízes culturais. Assim as culturas ancestrais sobreviveram, preservando a identidade do nosso povo.
À semelhança da Festa do Divino e outros rituais que fazem parte do nosso folclore mais conhecido, o MARABAIXO mantém as comunidades em constante atividade cultural, com seus centros comunitários de convivência e festivais, que levam a Macapá as caravanas das diversas comunidades, promovendo concursos e distribuindo prêmios.
A autoestima dos povos depende do cultivo de tradições culturais, que lhe confere uma identidade, orienta seus objetivos para o aprimoramento de suas habilidades naturais e o aprendizado dos costumes ancestrais. Isso promove a convivência nas comunidades, fazendo com que as famílias cooperem entre si, foratalecendo, através da solidariedade, as populações fragilizadas pela discriminação e pelas desigualdades sociais.
As canções tem letras singelas e preservam palavras usadas pelos negros no tempo do império. O ritmo lembra o jongo e outros ritmos da mesma categoria de ancestralidade. São os ritmos que deram origem ao samba, lambada, axé e similares que fazem parte da nossa cultura mais popular. Vamos falar dessas modalidades de raiz com frequência por aqui. Digo porque:
 
Através desses centros culturais os governos têm desenvolvido políticas públicas aproveitando a mobilização das comunidades, que neles organizam-se e articulam as providências necessárias para atender suas necessidades. As crianças são mantidas ocupadas, crescem com um sentido de identidade bem orientado, em contato com os mais velhos, com quem aprendem a tocar as “caixas” do marabaixo, ou a manejar com graça a saia em harmonia com os passos da dança.
  
“Levanta a barra da saia, sámoça
Que saia de roda custa dinheiro, samoça
E dinheiro custa a ganhar!”
A riqueza destas trovas é algo extraordinário! Adequado para a convivência das famílias, o conteúdo é singelo e bem humorado. As moças sorridentes balançam com graça a saia e concorrem, nos festivais, ao cobiçado título de PRINCESA DO MARABAIXO. Coisa bem linda de se ver…