12 out nas ruas

#WorldrEvolution II – Indignados do Brasil

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O grande impasse para articulação de resistências às autocracias e exercício dos direitos civis e humanos aqui no Brasil é a oposição severa que existe entre os intelectuais ideocratas e o pragmatismo das manifestações civis. As marchas e protestos são vistos com desprezo pelos inteletuais, uma elite quase tão cruel e tirana quanto os políticos aos quais eles criticam. Talvez eu esteja sendo injusta com uma pequena, mas bem pequena minoriazinha, da qual faz parte o querido eterno MINISTRO GILBERTO GIL. Existe no Brasil o que eu chamo de NEOREACIONÁRIOS, uma camada da classe intelectual defensora do DIREITO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL, que deixou pra trás seus ares de rebeldia e contestação da juventude, acomodando-se numa vergonhosa atitude coronelista, reassumindo os valores burgueses tradicionais de seus antepassados, contestados na mocidade. Hoje são senhores e senhoras de idéias conservadoras e coniventes com as instituições governamentais, que subsidiaram seus projetos culturais, e foram seus provedores por toda a vida. Os que são levados a sério ostentam um vocabulário complexo e um ar aristocrático com o que impressionam seus incautos admiradores, mantendo-se num apartaid que garante platéias lucrativas.

É difícil ensinar ao brasileiro a pensar sozinho, fomos acostumados a ter contato superficial com todo tipo de informação, só pra entrar nos círculos sociais e ter algum comentário preparado, para qualquer assunto que surgir. O importante é dar a entender que estamos “por dentro” de tudo o que se passa, enquanto, de fato, não aprofundamos nosso pensamento nem refletimos sobre coisa nenhuma. Isso criou em nossa cultura uma verdadeira fobia pelo aprofundamento em torno de qualquer idéia ou assunto. Quando isso ocorre, todos se defendem com provocações, sarcasmo, dizem que “baixou o astral” da conversa e simplesmente se recusam aos debates, experimentando isso como algo negativo, sofrido, doloroso, escapando por tangentes disfarçadas de bom humor, como uma desculpa para fugir daquilo que poderá colocar em evidência o seu verdadeiro status de compreensão da pauta: abaixo da média. Ser fútil e superficial é sinônimo de não ser estressado, ser cool, cabeça fresca.

Quem pensa muito é visto como estressado, mau humorado e arrogante, porque quem é humilde e bacaninha fala errado, não usa um vocabulário muito vasto e só fala trivialidades: futebol, celebridades, de preferência tudo o que diz respeito à vida alheia. Esta é a a regra para a boa socialização. Nós não conferimos as fontes das informações, apenas as repetimos como papagaios e somos vítimas de nossa tagarelisse, porque os que nos manipulam sabem exatamente quais os ingredientes que um boato precisa ter pra se espalhar como um vírus e formar a opinião da massa. O brasileiro tem preguiça de pensar, de ler, de fazer um pouco mais de esforço para aprimorar as coisas, de investir mais tempo para caprichar no acabamento de suas tarefas, idéias e opiniões. Isso nos faz presas fáceis para formadores de opinião cuja popularidade e perfil fabricado dentro dos padrões adequados os faz como matrizes de preceitos e doutrinas construidas para manter o brasileiro sem conexão com idéias e atitudes que predominam no resto do mundo.

Da primeira vez que tive contato mais prolongado com um grupo de canadenses eu era adolescente, no Rio de Janeiro, onde nasci. Fiquei admirada com a maneira com que eles cultivavam não só valores morais, mas praticavam de forma corriqueira a gentileza, a solidariedade e o respeito pelas diferentes necessidades uns dos outros, na rotina diária. A grosseria que confundimos com “intimidade” é intolerável em outras culturas, atitudes que interpretamos como ingênuas ou idiotas são admiradas como nobreza de caráter e honestidade. Como nossos valores foram tão distorcidos? Elegemos líderes fabricados. Escolhemos mal nossos conselheiros, rejeitamos aos que nos convidam a refletir, nos ensinando a formar nossas próprias idéias, e abraçamos sem pensar o primeiro jargão que nos soar bem ao ouvido, como a idéia da moda, a bola da vez. Depois votamos, e elegemos mal nossos governantes, somos incautos com uma ferramenta de construção democrática em nossas mãos, que não sabemos usar, nem nos esforçamos para aprender a fazê-lo.

Então, quando tudo começa a dar errado, fugimos de novo da reflexão, procurando alguém em quem jogar a culpa, o bode expiatório que vai pagar o pato. Nunca chamamos para nós mesmos a responsabilidade de nossa má conduta, nem admitimos que apenas colhemos os frutos amargos daquilo que plantamos. Por isso não abrimos o único caminho para uma verdadeira mudança em nossa Nação: uma mudança de consciência, de atitude, de comportamento coletivo.

O Brasil ocupa as ruas no feriado do DIA DAS CRIANÇAS. Não poderia ser mais adequado. “Pátria minha, patriazinha, tão pobrinha” disse o poeta. Uma nação criança dona de tamanha riqueza que nem pode imaginar, sendo levada pela mão de oportunistas com ares de “papai” e “mamãe” que vão cuidar de tudo, sem que a criança tenha que parar de brincar, mantendo-a distraída com seus briquedos de carnaval e futebol, enquanto sua herança é expoliada até que ela seja abandonada à própria sorte, sem ao menos entender porque. Nação exuberante em beleza e diversidade em todas as áreas, povo alegre e trabalhador, sobrevivente de altos impostos em troca de descaso e abandono, sobrevivente da violência que a desonra e a indignação fomentam no coração cançado de decepções, mentiras, engodos. Hoje o Brasil diz: BASTA! Que seja o primeiro de muitos dias em que essa criança tão linda creça, resolva assumir a responsabilidade de si mesma e decida tomar conta do que é seu.

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